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Mirna – Face e Nariz

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“Carlos Drummond de Andrade nos fala de uma “ingaia ciência”: “a madureza, essa terrível prenda que alguém nos dá… A madureza sabe o preço exato dos amores, dos ócios, dos quebrantos, e nada pode contra sua ciência e nem contra si mesma”. Cecília Meireles nos diz das “conquistas áridas do tempo”. Freud reconhece em “O Mal-Estar na Civilização” que a vida é extremamente árdua, cheia de tarefas impossíveis e de muitos sofrimentos e decepções e que, por isso, necessitamos de paliativos para suportá-la, que podem ser desde a ordem da atividade científica, ao visar diminuir nossos males, passando pela da arte, constitutiva da fantasia como papel importante na vida mental, até a das substâncias tóxicas, que nos tornariam insensíveis às desgraças ao alterar a química corporal.
A busca da felicidade, na concepção de Freud, tanto pode ocorrer como meta positiva – busca de satisfação irrestrita de todas as necessidades, independentemente dos riscos envolvidos – mas também como meta negativa – fuga do desprazer (que dependendo da fonte de desprazer pode ocorrer por isolamento voluntário, por intoxicação química, por controle de instintos através de um processo de sublimação, por recusa da realidade através, por exemplo, de ilusões, etc.). Um método também citado por Freud na busca da felicidade pode se dar através da atitude estética com relação à vida, ou seja, a busca da felicidade ocorre predominantemente na fruição da beleza, a qual, nas palavras do autor, “dispõe de uma qualidade peculiar de sentimento, tenuamente intoxicante”. Esta atitude, acredita Freud, embora não ofereça muita proteção contra o sofrimento, é capaz de compensá-lo bastante.

Todas estas citações e paráfrases foram utilizadas por mim para falar da importância da cirurgia plástica – reparadora ou rejuvenescedora – (apesar de ser considerada por alguns como um procedimento fútil, ou pior, inútil, para além do seu efeito reparador), na medida em que acredito que não somos apenas espírito, alma, psiquê, mas também corpo, carne, forma, mesmo que não saibamos ao certo como estes, por assim dizer, dois aspectos do “ser” humano, se encontram integrados. Creio, por isso, que necessitam de um acordo entre si, isto é, uma síntese entre aquilo que no ser humano é da ordem do sensível e aquilo que seria da ordem da inteligência, para interagirmos afetivamente de forma harmoniosa com o mundo. Não acredito em um corpo humano separado de seu aspecto psíquico e divido em partes e tido como simples soma destas partes, que se encaixam num funcionamento mecânico. Estas divisões do tipo alma/corpo são para mim meras abstrações imaginárias, talvez criadas para ocultar as nossas inseguranças e ignorâncias diante da complexidade do real.
A “ingaia ciência”, as conquistas áridas do tempo, os sofrimentos e decepções…, levou-me a refletir com mais consideração e carinho com relação a esses homens/mulheres que se dedicam com competência técnica, ética e compaixão a diminuir o sofrimento humano naquilo que lhes é possível, ou seja, aos cirurgiões plásticos.

Em 1986, aos 37 anos, sofri um acidente de carro com fraturas de maxilar superior e mandíbula e com perda de cinco elementos dentários frontais superiores, o que me deixou em profundo estado de depressão, com fantasias suicidas diárias e crises de choro do amanhecer até ao adormecer, porque não sabia como conseguir dinheiro suficiente para uma reconstituição digna. Ao final de seis meses consegui recompor o meu rosto e me sentir um pouco melhor. Porém, nunca mais me reconheci como a mesma pessoa. Parece que parte da minha identidade estava perdida (a identidade se dá, se não para todos pelo menos para alguns, também na carne, no rosto). No final desses seis meses de depressão e choro, já com novos dentes, percebi que tinha envelhecido antes do tempo. Meu rosto apresentava uma flacidez anormal para quem tinha na época 37 anos.Nova tristeza diante do que o espelho me apresentava/representava. Foi através de uma cirurgia plástica que consegui de novo voltar a ter uma convivência se não totalmente feliz pelo menos mais agradável com o meu rosto.

Mas “as conquistas áridas do tempo” continuaram a agir e o meu desentendimento com o meu rosto aumentou com a idade. Comecei a usar o artifício de esconder o rosto o máximo possível, colocando o cabelo sobre ele. Atualmente, com 55 anos, fiz mais uma cirurgia plástica.

Gostaria de acrescentar, apenas como argumento em defesa da cirurgia plástica, seja reparadora seja rejuvenescedora, que sou uma mulher que sempre coloquei em primeiro lugar, ao julgar o ser humano, não o seu aspecto estético, mas o seu caráter e a sua postura ética diante de outros seres humanos e até de outros seres vivos; que sempre considerei como mais importante para o “ser” mulher a sua independência financeira e o seu conhecimento intelectual. Formalmente, sou economista e bacharel em filosofia. Além disso, tenho um curso incompleto de psicologia e um conhecimento de mais um pouco de tudo que pude estudar informalmente até o momento em outras áreas do conhecimento humano e do que aprendi experimentalmente com a vida. Com isso, com este sucinto currículo, quero apenas dizer que não estou falando apenas de estética, de beleza, embora a ache fundamental – é “tenuamente intoxicante”, como disse Freud – mas de sofrimento humano, que queiramos ou não, seja do ponto de vista estético ou não, a “madureza” nos traz. “